terça-feira, 9 de outubro de 2018

Segundo turno

.



Quem acha que o Brasil vai virar uma ditadura de direita ou uma Venezuela petista está exagerando no pessimismo.
O país já convive há anos com uma sucessão de presidentes da República investigados, indiciados, denunciados ou acusados por vários crimes do Código Penal.
Temos um Supremo com 3, 4 ou 5 ministros que, em vez de defender a Constituição, torturam a Carta Magna para que ela confesse que “verdadeiros condenados são inocentes” ou que “verdadeiros inocentes podem ser condenados”.
E elegemos ou reelegemos um Congresso com mais de 200 réus na Lava Jato, sem que isso seja um problema para pessoas bem intencionadas que não aceitam ou não toleram o racismo, a misoginia ou o autoritarismo do Bolsonaro, nem o cinismo, a corrupção ou a sem-vergonhice do PT.
Ou seja: a gente tem a desfaçatez de não se importar com todas as cretinices já existentes; qual o motivo agora para tanto ódio, tanta raiva, tanta indignação e tanta incontinência verbal?
O problema – como eu já disse – é que os brasileiros se acham mais bonitos do que parecem, e mais honestos do que são.
Ninguém precisa de uma ditadura de direita para confessar atração pelo curandeirismo e ninguém precisa de uma Venezuela petista para provar que sempre teve queda pelo charlatanismo.
Nenhum presidente ideal, perfeito ou qualificado vai satisfazer quem tem adoração pela imoralidade endêmica que sempre forjou nossa identidade nacional.
Vamos ser honestos pelo menos a respeito da nossa desonestidade.
E vamos, acima de tudo, pelo Brasil, apoiar, sim, quem quer que vença no segundo turno.
Seja quem for, e seja o que for, a gente vai ter que passar por isso… juntos!.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Evolucionismo

.



Na evolução da escravidão nada evoluiu.
Pouco mudou, no lugar do tronco, o morro.
Ao invés do chicote, a gravata como pode-se ver, não se evoluiu nada.
Senzala ou favela, o negro tá lá dentro dela.
A marmita fria na lata é mais deprimente que a invenção da feijoada.
Quem me dera um dia tudo mudar.
Colocar o zumbi no meu colo e ninar o operário no shopping a gastar, a gastar.
Felizmente eu sou o que infelizmente eles não querem que eu seja.
Mas o operário há muito não sabe o que é um salário.
O zumbi nunca ficou tanto tempo sem dormir.
Se isso for evoluir, por favor, me deixe parar por aqui.

O Brasil precisa

.




O Brasil não precisa de um “candidato ideal”.
O Brasil precisa de “eleitores ideais”. Mesmo que existisse o candidato “quase perfeito”,
os eleitores “mais que imperfeitos” sempre estariam inclinados
a votar em quem eles bem entendem.
Não é por inocência, ingenuidade ou desinformação que os brasileiros estão sempre aceitando supostos salvadores da pátria e eventuais justiceiros da bala.
A culpa não é só da miséria cultural, intelectual ou educacional.
A culpa é também da miséria moral. Não existe esse negócio de que
“o brasileiro não sabe votar”.
O brasileiro sabe muito bem votar, e sabe muito bem em quem está votando.
Antigamente, podia-se dizer que milhões de pessoas não sabiam o que estavam fazendo.
Hoje essa alegação não convence mais porque o volume e as possibilidades de conhecimento em circulação não permitem essa falsa narrativa.
As pessoas votam em quem votam simplesmente porque elas querem… as pessoas já votam “com consciência”.
O problema é que muitas não votam “com caráter”.
Enfim, a culpa das bandalheiras não é só dos políticos que roubam,
é também dos brasileiros que elegem, reelegem e permitem que os políticos que roubam se perpetuem e se multipliquem.
Tudo isso porque os brasileiros se enxergam mais bonitos do que parecem… e mais honestos do que são.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Agrotóxico

.





A perfeição é um agrotóxico
transformou o amor em fruta de cera-
bonita, chata
Maçã envenenada.
Dá vontade de comer
mas maltrata por dentro.
A perfeição matou tudo o que era excesso.
Querendo eliminar as pragas,
exterminou o bom humor, a leveza, a tolerância.
Deixou o sentimento sem gosto, sem tutano
e um buraco no estômago.
A perfeição se leva tão a sério.
Pensa que é a rainha da sucata que é o caminho da felicidade.
Tem planos concretos,
sempre tem um ajuste, sempre tem um conselho.
Fiscalizadora de cantos
Tensão muscular.
Não relaxa, não voa, não vive.
Exigente percebo que a perfeição é um presente de grego.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Agronegócio

.




Quando vejo aquela propaganda
que diz que  AGRO é tech,
agro é pop,
agro é rock,
agro é vida; reflito e entendo perfeitamente porque o 1 de Abril de 1964 era indispensável, repito,
indispensável e não INEVITÁVEL.
Era indispensável para os latifundiários a contenção de qualquer projeto que sugerisse, mesmo que minimamente,
a ideia de uma REFORMA AGRÁRIA.
64 nunca foi contra o COMUNISMO,
sempre foi a favor do LATIFÚNDIO.
Usei as palavras nunca e sempre pelo simples fato de ainda sermos essencialmente um país do primeiro setor,
governado por uma elite que se pensa uma senhora FEUDAL.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Presunção

.




Algumas pessoas são felizes com o que tem.
Outras nunca serão, mesmo tendo tudo.
Esses são tão pouco presunçosos que gostariam de ser conhecidos da terra, mesmo das pessoas que vierem quando vós  já cá não estiverem.
São presunçosos desde o Génesis ao Apocalipses.
São aqueles que se supõe melhor, mais bonito, superior, mais inteligente, mais capaz, que os demais.
São tão pouco vãos que a estima de cinco pessoas, nos diverte e nos honra. A modéstia é tão natural no coração do homem que um operário tem o cuidado de não se gloriar e quer ter os seus admiradores.
São conformados com os padrões morais e éticos da sociedade.
Os filósofos querem-nos.
Os que escrevem em louvor da glória querem ter a glória de ter escrito bem. Os que lêem querem a glória de ter lido.
Eu, que escrevo isto, glorio-me de ter esse desejo.
Aqueles que o lerem hão-de gloriar-se também.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Poema sobre o orgulho

.




O orgulho parece estar cada vez mais em alta nesta sociedade.
Pois o individualismo, o  empreendedorismo e o conjunto de conhecimentos relacionados a essa forma de agir, passaram a ser metas, valores, fortemente estimulados.
Outrora enxergávamos o orgulho como o maior e o primeiro dos pecados capitais por seus atributos maléficos.
Hodiernamente o orgulho hoje virou  virtude, disfarçada e rebatizada de autoestima,e a vaidade é agora “amor próprio”.
Entretanto, somos pequeníssimos ao agirmos assim.
Contudo, não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez,
mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efetivamente somos.
Não será caricato, ridículo, grotesco e burlesco mas bastante triste agirmos assim? .

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Poema sobre o egoísmo

.




Quando alguém tomou posse de algo.
Nasceu o egoísmo.
Quando alguém foi para uma terra distante e remota, para tomar posse dessa terra.
Nasceu o egoísmo.
Agora o mal e o remédio estão em nós, como uma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã.
Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes para não vermos o egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano.
As pessoas não percebem que tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.
As pessoas perderam o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade.
O egoísmo estar no trânsito, nas ruas, nas igrejas e famílias.
Construirmos uma sociedade de egoístas.
Se a você te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por você, então converter-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais.
Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim.
Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado.
Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais.
São as catedrais do nosso tempo.
É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica.
Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra.
Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano.
Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser.
Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… alguma coisa não funciona.
Talvez um dia!.
Um dia talvez.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Os dois Brasis

.



Existem dois Brasis, ao menos.
O primeiro é um Brasil entre nossos dirigentes.
Ou seja, dos jornais e telejornais que ainda manipulam.
Cavilam.
Articulam sedições e violam as leis.
Criam o segundo Brasil através das mídias.
Recriam uma ilusão, trazem algo que não faz o segundo Brasil nascer ou renascer das cinzas de uma cultura que estás dormente por séculos.
Fazem um Teatro dos Vampiros, chamada de: TV.
Traem  uns aos outros  e a seus eleitores também.
Desuni uma família, enganar uma nação.
Insultam-se; todos com razão. Vivem para o poder dos cargos e das verbas.
Fazem a decadência, atraso, declínio e empobrecimento total.
Brasil podre, carcomido, massa de bolor dos ácaros da corrupção.
Brasil de víboras, sanguessugas e ratos de ternos e gravatas.
Eles rastejam com ventre na poeira do solo, maldição do Gênesis para todas as serpentes traiçoeiras.
Este primeiro é o Brasil de zumbis devoradores do trabalho e dos impostos alheios.
É o Brasil abismoso, que causa um deterioramento e uma degeneração.
Um Brasil que estará torcendo para a sua seleção.
Existe um outro Brasil.
É jovem e dinâmico.
Nele  há estudantes que enfrentam filas enormes para ouvir ideias num início de inverno.
Encaram livros  na fila.
Conversam.
Debatem um futuro mais transparente e com vida.
Este segundo Brasil me emociona muito.
Porque eles ouvem.
Aplaudem.
Gritam.
Opinam.
Ensinam pelo silêncio atento e pelos olhos vivos.
É uma aurora, um despontar de vida, uma esperança e um horizonte emocionante.
O primeiro Brasil já me cansava em 1984, quando estudei sobre os comícios pela restauração das eleições diretas que o Congresso derrotou a democracia das ruas.
O segundo Brasil, eu reencontro nas salas de aula, nas ruas, em filas de livrarias, em noites de palestras e autógrafos.
São todos jovens!.
Alguns jovens com mais  70 anos, outros com 16…
São o sangue que ainda faz bater o coração da terra de Santa Cruz.
O primeiro Brasil tem poder, mas não é feliz.
O segundo Brasil não sabe ainda da extensão do seu poder, mas pulsa de alegria.
Na escuridão da crise que vivemos, cada um que vi ontem na UNIG era uma vela forte, decidida, luminosa e  com luz própria.
Obrigado a vocês do outro Brasil. Hoje, eu terminei  o dia emocionado por ter aprendido, mais uma vez, que o futuro é de quem ama.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Poema sobre os preconceitos

.



Sou baiano,negro, pobre e gay.
Sou cigano,feio,baixo e chinês.
Sou gordo, careca, indiano e japonés.
Sou nordestino ou argentino,mendigo ou indigente.
Sou idoso ou menor carente.
Deficiente ou impotente,crente ou ateu.
Árabe ou Judeu, Umbandista ou
Adventista.
Testemunha ou Kardecista.
Migrante ou imigrante, presidiário ou proletário.
Refugiado ou desabrigado.
Bêbado ou drogado,alcoólatra ou viciado.
Desempregado ou condenado.
Esquerdista, direitista, socialista ou capitalista.
Sou muito mais que tudo isso...
Se, não na carne, no espírito
de solidariedade com aquele
que sofre, chora e morre
não pelo que faz ou fez,
mas pelo sentimento incontrolável
de quem não compreende...
Nem faz qualquer esforço para isso.
É preciso sentir na pele, por vezes, literalmente, para dimensionar a loucura de julgar o outro
sem um dado objetivo
que justifique esta postura.
Não é fácil matar um leão por dia e ser excluído pelo grau de melanina.
OU por quem você suspira,
OU pela sua conta bancária,
OU pela sua luta diária,
OU de onde vai ou vem,
OU de quem você crê no além...
Esqueça-me por um dia
ou – melhor! – definitivamente,
pois o meu maior defeito
é parecer diferente
aos olhos de quem esqueceu
qual é o sentido de ser gente…

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Reprodução contínua

.



Não percebeu.
Mas uma semente pousou em seu precioso coração.
Trouxe palavras:  As ternas, as delicadas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas. Germinou lentamente, para deixar que o silêncio desse sentido,ao pulsar do meu sangue no teu ventre.
Agora que palavra ou discurso poderia dizer amar na língua da semente?.
Se cresceu em galhos, folhas e flores.
Atravessou os caminhos do seu corpo lentamente.
Boca, olhos, ouvido, tato olfato.
Todos os sentidos tomados pela mão pousada sobre a mão, pela proximidade da respiração, pelo leve roçar dos dedos, pelo olhar que penetrava, pelo perfume que dela vinha.
A planta assim nascida tinha nome. Paixão.
Que não pode se manter, porque o objeto desse amor não tinha a mesma sensação.
Sem correspondência, a planta feneceu.
Percorreu de volta todos os caminhos.
Aninhou-se em seu coração.
Voltou a ser simplesmente semente,para todos saberem que, em vez da felicidade, eu acredito na harmonia, penso que o amor é o encontro da harmonia com o outro.
“Diz o poema “.

Postagens mais lidas