quinta-feira, 7 de julho de 2022

Poema sobre os ausentes

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Gosto de imaginar a vida como um trem.
A cada estação, pessoas embarcam, enquanto outras descem.
Algumas, porque chegaram ao seu destino, outras porque precisam fazer baldeação, tomar outro trem que as leve ao seu destino.
Quantos embarcaram ou desembarcaram do vagão de nossa vida ao longo dos últimos anos?.
Os que fazem baldeação, simplesmente trocam de trem,
mas continuam por aí, prosseguindo em sua viagem existencial.
Pode ser que em algum momento,
a gente se cruze novamente se bem que, às vezes, a gente prefira que não.
Há ainda as que não descem do trem, mas mudam de vagão por já não apreciarem nossa companhia.
E quanto aos que chegaram ao seu destino?.
Refiro-me aos que nunca mais veremos, pelo menos, não nesta vida.
Quantas saudades deixaram!.
Seus lugares ficaram vagos e não há quem possa preenchê-los. 
Quantas coisas em nossa vida temos sepultado ao menor sinal de desgaste?.
Relacionamentos que deveriam ser perenes são simplesmente descartados.
Sonhos que nos acalentaram durante a juventude são engavetados tão logo tenhamos chegado à maturidade.
Amizades enterradas vivas.
Não seria o caso de nos recusarmos a sepultá-los?.
Até que ponto não nos temos entregado a um luto precoce?.
Não seria melhor depositá-los num lugar alto de nossa vida, acreditando que a qualquer momento o quadro possa ser revertido?.
Mudando um pouco o foco: será que temos sido imprescindíveis na vida de alguém?.
Quantas “túnicas e vestidos” já costuramos para quem não tinha o que vestir?.
Que diferença temos feito na vida dos que nos acompanham nesta jornada?.
O que cochicharão entre si quando nosso corpo inerte estiver descendo à sepultura?.
O que importa não é o quanto teremos amealhado para nós mesmos ao longo de nossa vida,
e sim o bem que houvermos feito ao nosso semelhante.
Se nossa vida houver sido verdadeiramente presente,
nossa ausência será sentida e lamentada.
Muito mais do que distribuir presentes é ser presente,
digo, em ambos os sentidos.
Ser presente no sentido de marcar presença e no sentido de ser uma dádiva.
A propósito, nenhum presente material é capaz de compensar a ausência.
Estar presente é mais importante do que cobrir alguém de presentes. 
Que dentre os votos que fazemos a cada passagem de ano,
esteja o de ser presente dos céus a todos à nossa volta, ao mesmo tempo em que acolheremos àqueles cujas vidas são igualmente uma dádiva celestial para nós.
O amor tem o poder de eternizar o que se é amado.
Ninguém pode dizer que amou alguém sem que, no fundo,
ainda o ame.
Portanto, mesmo que um dia tenhamos que sepultar o corpo de quem tanto amamos,
depositemos sua lembrança no mais alto lugar de nosso ser.

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