terça-feira, 26 de outubro de 2021

Poema sobre os Barrabás dos povos controlados

.





O primeiro plebiscito da história, quando Pilatos pergunta ao povo se quer o ladrão ou Jesus, o povo democraticamente grita “Barrabás, Barrabás”.
O grito da multidão não é sinônimo do poder do povo.
E nem da justiça, e nem da ética.
Ou seja, nem sempre a melhor escolha vai estar nas mãos do povo.
Nem sempre o povo saberá usar o poder de escolha ao seu favor.
Quando passo á analisar como Jesus se comportou na sociedade de seu tempo, vejo que nem todas as coisas são claras.
As vezes encontro obstáculos para colocar certas questões em ordem.
Nesse momento, eu abordo a questão da atitude política de Jesus interrogando os Evangelhos a partir das minhas preocupações, a partir das minhas interrogações e também o Evangelho, me interroga e me interpele.
Faço uma interpelação mútua entre nossa situação, o Evangelho e o pensamento político de Jesus.
Se desligamos Cristo do seu mundo social, produzimos um mito.
É impossível aplicar as palavras e os exemplos de Jesus para hoje sem levar em conta o mundo dele; o contexto sócio-político, as estruturas vividas por ele.
A sociedade em que Jesus viveu deve ser analisada a partir da economia, das relações de produção.
Em termos econômicos era uma sociedade pré-capitalista e agrícola.
Cristo considera a riqueza de uma maneira muito negativa, porque vê que a propriedade da terra está muito concentrada em um grupo burguês.
Por isso, a riqueza é um ídolo que faz concorrência com Deus.
No tempo de Jesus, o Estado é o que chamamos hoje de teocrático.
Ou seja, um Estado re­ligioso.
A constituição, as leis são a Bíblia,
os cinco primeiros livros chamados Pentateuco.
Ela é a constituição, o código penal,
o código civil.
Quando os juízes vão julgar alguém, eles interpretam e aplicam as regras da Bíblia.
O sumo sacerdote é o dirigente político da nação.
Qualquer comportamento religioso, nesta situação, e um comportamento político.
Não havia divisão, política de um lado, religião de outro.
Hoje nós temos uma divisão institucional entre Igreja e governo.
Naquela época a Igreja judaica era a sede do poder político, e o sumo sacerdote,
o governante da nação.
É muito importante entender que religião e política eram uma coisa só e qualquer comportamento blasfemo, irreligioso, era subversivo.
Quando Cristo cura em dia de sá­bado e não observa as tradições, ele está ten­do um comportamento subversivo, antipolítico.
Só levando isso em consideração é que entende­mos o quanto Cristo era de oposição.
A classe alta era composta pelos funcionários, pelos detentores do Estado: Sumo Sacerdote, Sinédrio e Estado romano,
O rei Herodes, o governador Poncios Pilatos e a Corte, esse era o primeiro pólo da classe rica, o se­gundo polo da classe rica era constituído pelos proprietários de terra, pelos latifundiários.
Os anciãos eram famílias tradicionais, donas de terras.
Tinham os grandes comerciantes do mercado importador e exportador, do mercado atacadista, sobretudo de Jerusalém.
A classe intermediária era constituída pelos pequenos agricultores, pequenos comerciantes e profissionais liberais,
que, naquele tempo, eram os escribas e os fariseus.
Os escribas não eram ricos.
Eram uma classe intermediária que estava em ascensão, com a hegemonia da sociedade.
Nessa posição havia a classe do baixo clero, os sacerdotes do templo e os levitas, que giravam em torno de  milhares de pessoas.
O povo era muito fragmentado, tanto que o Evangelho diz "multidão".
O povo era uma massa de gente, sem maior coesão interna, sem espírito de classe.
No meio do povo existia toda a sorte de trabalhadores.
Eram artesãos do interior, diaristas, arrendatários rurais, escravos, criados,
e também existia toda a sorte de marginalizados.
Leprosos eram os últimos dos últimos, doentes,
mendigos,
órfãos,
viúvas,
estropiados e possessos.
Chamavam de possessos as pessoas que, por causa de suas condições sociais, ficavam loucas.
Isso mostra o nível a que estava reduzido o povo, o grau de deterioração das condições de vida.
Havia filhos de pessoas adúltera ou de um estrangeiro ou de um samaritano que não tinha muita consideração.
Os fariseus e os escribas controlavam a interpretação da Bíblia.
Eles estavam subindo na sociedade e adquirindo bas­tante postos no Sinédrio, dentro do governo Judeu.
O partido era formado pelos intelectuais do templo, pelos advogados, teólogos. 
Seus partidários se concentravam em torno da Sinagoga, porque ali era o lugar em que se lia a Lei de Deus, era a liturgia da palavra.
Eles dominavam porque eram os únicos que sabiam ler e interpretar a Lei Bíblica.
Tinham a hegemonia, no sentido de que detinham a direção moral e intelectual.
Os  Zelotas era um partido radical, que rompe definitivamente com os romanos e adota a prática da guerrilha, da violência ar­mada.
Eles visavam destruir a estrutura política romana e também o poder judaico 
Para entender como é que Jesus se posiciona diante dos revolucionários,
é necessário lembrar que esse partido tem um projeto nacio­nalista na cabeça.
Além da independência da Palestina, ele querem unir um projeto expansionista, imperialista.
Eles querem colocar o judeu no centro e sobre todos os outros povos, e criar um império mundial judeu.
O César judeu seria uma espécie de César-Moises, César Bíblico que dominasse o mundo, já que isso estava nas profecias da Bíblia.
No projeto dos zelotas havia também a restauração de teocracia, do rei santo, muito parecido com Davi.
Cristo dessacraliza o poder político, não pensa em poder religioso, teocrático.
Deste ponto de vista, há diferença entre Cristo e os revolucionários zelotas.
Existiam ainda outros partidos de significação menor, como os essenios,
os heroditas e outros, e tinha também o povo sem organizações populares de base e que estava mais sob a dominação dos saduceus e dos fariseus.
A Lei era uma espécie de força que impedia toda a criatividade, toda força, exuberância.
Esse legalismo, mantido sobretudo pelos escribas, pelos doutores da Lei, era extremamente funcional.
Servia para acobertar as iniquidades do regime e manter o povo do­minado.
O legalismo não era um desvio puramente moral ou religioso.
Tinha uma função também política.
A Lei era tão rigidamente aplicada para pode manter o povo submetido, o conhecimento dos doutores da Lei se baseava em uma espécie de conhecimento se ereto, ou seja, somente eles sabiam ler e interpretar a Lei.
E isto era feito com um vocabulário complicado, difícil, de modo que deixavam o povo confuso e crente de que eles entendiam os mistérios de Deus. Assim o povo entre­gava sua liberdade nas mãos dos fariseus, dos doutores da Lei.
Só desse modo compreendemos as violentas investidas de Cristo contra os Escribas e os Fariseus.
Eles realmente sequestrava as chaves da casa da ciência.
O povo imaginava o Messias do tamanho de seu desejo e de suas necessidades.
Ou seja, o Messias seria um grande benfeitor que viria trazer pão, saúde, libertação de todas as opressões.
O povo esperava o Messias realmente material e a espera era feita de uma maneira urgente, delirante, de uma hora para outra.
Havia uma expectativa incrível de um salvador, libertador, e se investiam sobre as pessoas que apareciam com uma certa perspectiva de libertação.
Jesus vivia na companhia dos pobres, dos oprimidos.
Sua base social eram os oprimidos e marginalizados daquela sociedade.
Os seus primeiros milagres foram curas de pessoal muito marginalizadas.
A tradição dizia para ser afastar dos pobres, dos pecadores, porque eram malditos.
A condição de vida dos pobres lhes impediam de praticar a Lei.
Portanto, concluía-se que eram pecadores.
Cristo se aproxima, defendendo os pequenos.
Ele era do partido dos pobres,
dos oprimidos.
Cristo tinha  uma atitude critica frente aos poderosos.
O conflito entre Jesus e os di­rigentes do povo atravessa os Evangelhos de ponta a ponta.
Jesus ataca diretamente os Escribas, Fariseus, os Sumo Sacerdotes e os Saduceus, expulsa os vendilhões do Templo, e declara que o Templo vai acabar.
O Templo significa o sistema da época.
Amaldiçoa também a figueira, símbolo do sistema Judaico.
Uma semana depois era levado ao tribunal, e condenado a morte na cruz.
Jesus não tinha programa político definido, como o tinham os Zelotes,
os Saduceus e os Fariseus.
Temos as palavras de perdão, de não violência.
Jesus anda em companhia dos fiscais,
se relaciona com os romanos e resiste à tentação do poder, o que não ocorria aos Zelotes.
Ele não queria revelar sua identidade messiânica para não provocar atitudes de sublevação no meio do povo, pois achava que isto iria ser um suicídio.
Jesus não era um ser alienado, indiferente.
Jesus foi contra o poder de dominação.
E se guardava o poder merssiânico, era porque o povo fazia uma idéia mística do Messias.
Uma idéia mágica de um Messias milagreiro, demagógico, paternalista, portanto uma idéia libertadora e autêntica.
Cristo teve uma atuação política verdadeira, mas a nível profética.
Foi um revolucionário profético.
A sua grande idéia é a do Reino de Deus, que é um projeto radical.
No fundo, a raiz da proposta de Cristo e, na verdade, profética.
Mas ele tinha implicações e efeitos claramente político.
Essa proposta leva-o a atacar o Templo, o cérebro central da exploração do sistema.
Porque era profética, a sua proposta tinha uma implicação política.
E os efeitos disso também são políticos.
Vemos que Cristo é perseguido continuamente durante toda sua vida pública ele; é julgado por dois tribunais pelo religioso onde foi declarado blasfemo; pelo romano, onde foi condenado exatamente como Messias, como revolucionário.
E basta olharmos o crucifixos para nos darmos conta de que esse símbolo da nossa fé é um símbolo originariamente político.
Embora não vise diretamente derrubar o poder ou propor um modelo alternativo,
a nossa pastoral tem uma dimensão política.
E da mesma forma que confundiram Jesus com os Zelotes, hoje também se confunde e se condena a Igreja como comunista, como subversiva.
Entendemos a maneira de Jesus se com portar no seu templo da mesma forma que entendemos a maneira da Igreja,
os bispos e as comunidades se comportarem na sociedade de hoje.
Embora a raiz, em ambos os casos, seja de fé Evangélica e porque é de fé Evangélica, os frutos, as consequências são e não podem deixar de ser políticas.
O comportamento histórico concreto de Jesus e o comportamento que a Igreja, os pastores e as comunida­des seguem ainda hoje, com as mes­mas implicações que ele teve.
Devemos entender os limites de Jesus, porque são os limites de seu tempo. Jesus era uma pessoa historicamente limitada.
Não era um homem de século II, pós-marxista.
Ele tem uma consciência política também limitada pelas condições do seu tempo.
E as condições concretas de sua época limitavam o poder e a capacidade do povo.
Ou seja, era impossível organizar o povo de tal maneira que ele pudesse obter o poder e exercê-lo de maneira adequada.
Mesmo que Cristo tivesse na cabeça um projeto revolucionário de conquista do poder e de organização de uma sociedade alternativa, não havia condições históricas para que isso fosse desenvolvido.
A gente tem de ver que Jesus era um homem do século I.
Ele não e um Lula ou um Bolsonaro de hoje.
O Lula e o Bolsonaro são o que são por causa da sociedade do século XXI, e da sociedade idólatra.
Ou seja, a gente é também a sociedade onde a gente vive.
Então Jesus era limitado pelas possibilidades políticas daquele tempo.
Era uma limitação do mundo dele.
Outro dado importante, é que Jesus não podia ser tudo ao mesmo tempo.
Ou era profeta, ou revolucionário Zelote.
Ou seria Messias po­lítico ou Messias pobre, sofredor como o povo.
Jesus escolheu o caminho profético.
Dessa forma não se pode argumentar porque Jesus no participou da política diretamente.
Tem gente que trabalha na pastoral e tem gente que trabalha no Sindicato,
outros trabalhos no partido.
Aliás, essa e uma questão que se coloca atualmente para os líde­res de comunidade.
Muitos têm possibilidade de participar de partidos, mas já assumiram a responsabilidade de participar da pastoral.
Surge uma questão concreta, que é a de não ter tempo de participar dos dois.
Esse é um problema concreto, prático, e não de princípios.
Se Cristo viesse hoje, quem sabe se ele não entraria para um partido político.
Por que não vemos de entender que ele viveu em uma situação, com possibilidades pessoais e biográficas muito limitadas.
E nós que vivemos numa sociedade que se politiza e se organiza cada vez mais, devemos entender isso.
Devemos também, a meu ver, traduzir em termos políticos as propostas do Evangelho de Jesus.
As vezes o Evangelho tem propostas limitadas a nível individual, como por exemplo, o bom samaritano que se curva diante do despojado para ajudá-lo.
Devemos fazer uma tradução política disto; porque essa é a nossa mentalidade.
O amor ao próximo não é amor ao outro, individual, é o amor às massas humanas, as classes inteiras.
Quem são os ricos e os pobres Lázaros?.
O pobre Lázaro são os favelados,
os operários da periferia.
São as massas oprimidas e exploradas.
Não são Maria, João, pessoas individuais.
São massas inteiras.
Vivemos em uma sociedade de massas, constituída em classes muito diferente daquela em que Jesus viveu, onde a relação era a dominante.
Assim a pratica política direta vista por nós nos partidos, nos sindicatos,
pode ser um modo nobre de ser discípulo, de seguir a Jesus Cristo e imíta-lo de maneira criativa.
Não devemos ver Jesus apenas no passado, há dois mil anos, mas devemos vê-lo vivo, ressuscitado fazendo política através dos movimentos históricos,
dos grupos sociais dos cristãos e nâo-cristãos.
Por enquanto, o povo prefere vê-lo apenas no passado, quando democraticamente grita "mito, mito".
São os Barrabás solto pelos gritos de pseudo pressão de uma plateia rancorosa, atiçada para pedir reeleição.

Postagens mais lidas