sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A fantástica fábrica de dissimulados

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São muito poucos casos em que  pessoas morreram tendo dominado verdadeiramente a sua alma.
Com oscilação, nem sequer a conheceram.
Desde a primeira idade, tiveram na sua frente os exemplos que lhes pareciam ótimos e, a pouco e pouco, lhes escupiram, diminuíram e ocultaram a sua natureza.
Se essa natureza era baixa e pobre e os exemplos foram bem escolhidos, a imitação evitou mais um idiota ou um infrator.
Todavia, em muitos casos, trata-se de naturezas ricas e generosas que teriam podido dar mais do que obtiveram com o método quadrúmano, e vale muito mais um talento pequeno, mas novo, do que a imitação medíocre de um génio.
Mas quase ninguém se atreve a ser o que é e todos querem ser outros.
E como nem a todos se adapta o modelo que escolheram, a imitação resulta quase sempre inferior ao modelo: um desenho tosco efetuado numa parede vale sempre mais do que uma cópia da dama com arminho de Leonardo da Vinci.
Mas o homem não pode deixar de copiar e não faz senão uma fantástica fábrica de dissimulados.
Porque quer ter uma réplica do mundo, reduzida às proporções humanas e aos seus gostos.


Vícios políticos

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Ninguém pode ser contra a Lava Jato porque ninguém pode ser contra corruptos na cadeia.
Assim como ninguém pode achar que a corrupção é um mal menor que os crimes de pedofilia, sequestro, homofobia ou racismo.
Mas o debate não acaba nessas certezas, já que a Lava Jato também não é um bem maior do que os princípios da igualdade, imparcialidade e impessoalidade na lei ou na Justiça.
A pretexto de vigiar e punir abusos políticos, não se pode aceitar da Lava Jato desvios políticos capazes de reproduzir os mesmos vícios políticos que se quer evitar.
Também não se pode aceitar que a Lava Jato se multiplique em uma estratégia que comercializa o direito de uso de uma marca, patente, infraestrutura ou capitanias com métodos e objetivos distintos.
Não se pode aceitar que exista a Lava Jato de Brasília,
a Lava Jato de São Paulo,
a Lava Jato do Rio e a Lava Jato de Curitiba, com vontades e vidas próprias, acima das próprias instituições que se pretende defender.
Importante agora é discutir qual o modelo nacional de Lava Jato,
de combate à corrupção, que nós queremos evitar nova onda de difamações e desconstruções corporativas nos setores público e privado.
Precisamos repensar se queremos prender dirigentes e executivos corruptos ou se só queremos fechar empresas e empregos vitimados pelos dirigentes e executivos; e descartar a nomeação da Lava Jato, de modo a impedir que motivações pessoais e projetos eleitorais acabem distorcendo os começos, os meios e os fins das investigações.
Contundo, há espaço para defender a Lava Jato e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar a Lava Jato.
Mas não há espaço para colocar a Lava Jato no banco dos réus.

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