segunda-feira, 25 de abril de 2022

Nossa estrutura humana é pó .

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Jesus não conviveu ao lado de gente certinha.
Ao contrário, ele evitava e criticava quem se gabava cumprir todas as demandas da lei judaica. 
Jesus chamou os austeros sacerdotes de sepulcros caiados; tratou mestres como cegos guiando outros cegos. 
Os sacerdotes do templo conseguiam convertidos,
mas Jesus disse que eles apenas condenavam as pessoas a um inferno duplo. 
O filho do homem, gostava da companhia de pecadores iguais a gente comum. 
Ele se sentia bem perto dos que assumiam a condição humana. 
Ao alistar apóstolos não se importou com suas inadequações.
Pedro era tempestivo;
Tomé, hesitante;
João, vingativo;
Filipe, lento em compreender;
Judas, ladrão. 
Acostumado aos costumes da sinagoga e com o linguajar dos doutores da Lei,
Jesus não buscou discípulos dentro desses círculos.
Jesus aceitou que uma mulher de reputação duvidosa derramasse perfume sobre sua cabeça.
Elogiou a fé de um centurião romano, adorador de ídolos.
Não deixou que apedrejassem uma adúltera.
Mostrou-se surpreso com a determinação de uma mãe cananéia. 
Nos estertores da morte, prometeu o paraíso a um ladrão.
Não mediu esforços ou palavras para enaltecer os diferentes.
Santidade nunca significou para ele a simples obediência a normas.
Jesus não tratava um ato igual a uma intenção.
Adultério não se restringe ao sexo; ele questionava os valores que antecediam a relação sexual.
Deus não busca vidas perfeitinhas.
Ele sabe que nossa estrutura humana é pó. 
Deus não exige correção absoluta.
Para isso, ele teria que converter mulheres e homens em anjos.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Poema sobre vínculos

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Certo dia, quando  Jesus caminhava entre a multidão,
uma mulher que tinha um fluxo de sangue contínuo resolveu se aproximar furtivamente Dele.
Ela pensou que se O tocasse seria curada.
E realmente o milagre aconteceu.
Mas, no meu entender, tão importante quanto a cura,
foi o tipo de contato que ali se estabeleceu.
A multidão O empurrava e esbarrava Nele o tempo todo.
No entanto, Ele identifica e sente de modo diferente o toque daquela mulher, porque na verdade,
ela se aproximou esperando não somente encostar em Jesus,
mas ansiosa por algo maior:
uma conexão, uma troca,
uma ligação pra além do esbarrar.
O que ela ansiava era o vínculo, através do qual o milagre aconteceria.
Estamos cercados de muita gente.
Temos contato com pessoas o tempo todo.
Mas se não estabelecermos relacionamentos que nos tragam significado existencial,
estaremos sós em meio à multidão, esbarrando-nos acidentalmente uns nos outros.
O que precisamos mesmo é de vínculos.
Vínculos estes que nos tragam a experiência da troca, do afeto,
e do olhar que não somente vê,
mas nos faz enxergar uns aos outros.
É isso que nos aproxima e vai nos manter vivos num mundo onde grassa a frieza e a indiferença.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Metaverso

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Na última semana um pastor estreou a primeira igreja brasileira no metatarso com um culto composto por 150 avatares.
A nova realidade, que pode virar uma febre no meio religioso,
trará, também, uma infinidade de problemas.
O metaverso, como se sabe,
é um ambiente tecnológico que combina, a princípio, realidade aumentada, realidade virtual e internet.
Nele já é possível você criar o seu avatar e passar, a partir dele,
a ter sua vida numa versão digital,
o que lhe permite, por exemplo,
ir a shows, fazer viagens, se relacionar com pessoas,
fazer compras e, agora, ir a “igreja”!.
Diante da possibilidade, enumero a seguir alguns dos problemas que tal iniciativa irá criar a igreja no metaverso vai dissensibilizar,
ainda mais as pessoas, quanto às necessidades e dores humanas,
o pobre,
o órfão,
a viúva,
o viciado na rua,
a travesti na esquina,
o doente no hospital,
o preso,
grupos que hoje são considerados invisíveis sociais estarão ainda mais encobertos, apartados da dimensão do mundo virtual, eles agonizarão sem ter quem os acolha e ajude.
A fé em Jesus é, antes de tudo,
um chamado para que o indivíduo se enxergue, um desafio para que ele se arrependa de quem se tornou e busque, pelo poder do Espírito,
a Nova Criação que está em Cristo.
No metaverso, todavia, as pessoas podem escolher ser justamente quem não são, sobretudo, para que possam ser aceitas na comunidade,
é o ambiente perfeito para o disfarce, para a vida camuflada, para a assunção do personagem,
um “armário digital” capaz de abrigar, indefinidamente, quem quer que sejam
Segundo Paulo, os dons do Espírito Santo foram repartidos com a igreja para o serviço e edificação dos santos, ou seja, é na vida real,
onde as trocas relacionais revelam as necessidades de cada pessoa,
que os dons podem ser melhor empregados, com vistas a cumprir a dimensão dos “uns aos outros” tão presente no Novo Testamento.
Ora, num ambiente virtual isso se torna impossível, não só pelas restrições físicas, como também pela impessoalidade das trocas entre as pessoas.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Uma causa, uma pauta

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Jesus Cristo tinha uma causa,
um pauta de luta da qual ele não abriria mão nem sob ameaça de cruz, a pena de morte romana.
Os próprios representantes do estado romano e do estado judeu não veem em Jesus uma ameaça.
Quem se sente ameaçada por ele é a religião dele, a religião em que ele nasceu e da qual foi se distanciando, se desconectando gradativamente. Ele, bebê, foi circuncidado,
como qualquer criança católica é batizada e como qualquer criança evangélica é apresentada no templo.
Ele cumpre os ritos de ir com os pais ao templo de Jerusalém como uma criança muçulmana iria com seus pais a Meca.
Depois, como acontece com tantos adolescentes cristãos, ele vai percebendo que já não cabia no controle de sua religião, que não fazia sentido aquele nacionalismo doente, aquele fundamentalismo que colocava os dogmas acima das pessoas, aquela aproximação luxuriosa de sacerdotes e governantes.
Em que  momento um adolescente brasileiro que já não se identifique com a religião dos seus pais consegue autonomia para deixá-la sem gerar um crise familiar muito grande?.
Jesus Cristo espera esse momento e rompe com o sistema religioso judaico.
Ainda assim, continua frequentando  sinagogas, de onde sai vaiado ou apedrejado por causa do seu discurso antifundamentalista.
Ele continua frequentando o templo onde acaba perdendo a cabeça e agredindo os poderosos que serviam ao templo e enriqueciam,
e vários outros comerciantes mafiosos da fé.
A partir desse episódio, principalmente, ele entra na mira das lideranças religiosas e não do governo.
O governo não tem interesses nele.
Ele não era uma ameaça para o estado romano.
Ele era uma ameaça para os interesses religiosos judeus.
Ocorre que os judeus tinham o tal do "não matarás".
Líderes religiosos poderiam até mandar matar, mas não matavam eles próprios para "não escandalizar".
O estado se torna então o melhor matador de aluguel que uma religião aliada a ele pode contratar,
porque o estado faz o serviço limpo, sem crimes, usando seus agentes e suas leis.
E é isso que a religião dele faz: primeiro denuncia-o para o estado, como fez, no Brasil, o pastor batista Nilson do Amaral Fanini ao entregar listinhas de nomes de jovens batistas "rebeldes" para os generais da ditadura; como fizeram os irmãos Sucasas, pastores metodistas voluntários no DOI-COD; como fizeram os lideres presbiterianos que denunciaram  o jovem pastor Rubem Alves, entre tantos outros.
Ocorre que o estado romano não viu qualquer irregularidade nos feitos de Jesus que representasse uma ameaça ao Império.
Aí então, a religião precisou ir direto ao ponto: "Não importa.
Precisamos matar ele.
Ele pode não estar atrapalhando o império, mas está atrapalhando os nossos negócios, e o império precisa dos nossos serviços de anestesiamento e alienação do povo..."
E o império o matou para fazer um afago na religião, para agradá-la.
Hoje, a religião que se pensa dona dele, faria o mesmo.
Para evangélicos e católicos, Jesus é um cara legal porque está morto.
Vivo, seria uma ameaça,
um inimigo a ser combatido por essa mesma igreja.
A causa de Jesus Cristo é a nossa causa.
Eu morreria pela minha causa,
pela minha pauta.
Eu amo o Jesus Cristo que morreu por uma causa.
Não precisava mesmo ser por mim.

domingo, 17 de abril de 2022

O sentido da Páscoa

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Todos, sem exceção, estamos de passagem.
Não estamos vindo.
Estamos indo.
Não estamos de chegada.
Estamos de partida.
Vemos paisagens que nunca mais veremos.
Vivemos situações que jamais serão revisitadas.
Encruzilhadas que não se repetirão. 
A festa mais importante do calendário religioso judaico-cristão retrata justamente isso.
Páscoa significa “passagem”.
Foi instituída durante o chamado “Êxodo”, que por sua vez,
significa “saída”.
Nada jamais será como antes.
A vida segue um irreversível fluxo de mudanças.
E as maiores mudanças não se dão pela variação de cenários,
mas na sucessão de paisagens internas.
Nosso mundo interior está sujeito a rearranjos.
A cada nova peça encontrada,
o quebra-cabeça que parecia estar devidamente montado, desafia-nos a ressignificá-lo.
Novas combinações fazem com que imagens inusitadas emerjam.  
Cada pessoa que atravessa nosso caminho traz novos elementos que contribuirão nesta transformação.
Alguns que hoje nos brindam com sua companhia, ficarão pelo caminho, mas continuarão a nos acompanhar em nossa lembrança.
Cada pessoa que passa por nós,
não nos deixa sós, deixa um pouco de si, leva um pouco de nós.
Quem se atreveria a atravessar um deserto sozinho?.
A solidão não passa de ilusão.
Somos habitados por todos os que cativaram nossa atenção em algum momento do trajeto.
Afetos não se desfazem, apenas se transformam.
Alegrias viram saudade.
Feridas se tornam cicatrizes. 
Assim como temos um DNA que nos difere de todos os demais seres humanos, nossas experiências e relações nos fornecem um tipo de DNA existencial que nos torna únicos, indivíduos absolutamente autênticos.
Ainda que tais elementos sejam encontrados em outros,
a ordem sequencial em que se apresentam em nossa composição é absurdamente única.
Portanto, enquanto caminhamos, somos seres inacabados à espera de novos elementos que nos comporão. 
A tão desejada Terra Prometida se insinua no horizonte.
Mas nossa visão é bloqueada por uma cordilheira montanhosa.
As mesmas montanhas que bloqueiam nossa visão, servem-nos de plataforma para possibilitar que enxerguemos mais longe.
Tudo vai depender de onde nos pusermos, se nos pés do monte ou em seu topo.
A fé nem sempre remove montanhas.
Às vezes ela nos faz escalá-las.
Quem tentar rodeá-las estará fadado a andar em círculo.
Dificuldades superadas nos servem como referências geográficas nesta paisagem interior.
Sabemos de onde viemos e para onde estamos indo.
Porém, mais importante do que a viagem, não é apenas o destino em si, mas, sobretudo, a companhia.
Feliz é quem, em vez de buscar seguidores, procura por companheiros.
As areias do deserto não nos permitem deixar rastro.
Como, então, poderão nos seguir?.
Todavia, não estamos abandonados à própria sorte.
Seguimos a nuvem.
A mesma que nos aquece durante as noites gélidas e nos refresca sob o sol escaldante.
Seguimos Àquele que está acima de nós.
O único que foi capaz de enfrentar o deserto sozinho.
Não seguimos uns aos outros. Seguimos ao Ressurreto, enquanto oferecemos companhia aos que compartilham da mesma travessia.
Qual será nossa surpresa quando finalmente atravessarmos o Jordão da nossa existência e reencontrarmos lá todos os que nos ofereceram sua companhia ao longo do trajeto.
Não existe “adeus”!.
No máximo um “até logo”.
Por vezes, o reencontro se dá antes mesmo do Jordão.
As contingências da vida faz com que a gente se perca, e eventualmente se ache e seja achado.
Mas, se porventura, não nos esbarrarmos mais durante a viagem, certamente nos veremos para além do rio, onde nada mais passará,
mas durará para sempre.
Para os judeus é a travessia do Egito para Terra Prometida, por meio do Êxodo.
Para os cristãos é a travessia da morte para vida, por meio da ressurreição de Cristo.
Antes de deixar o Egito,
cada família hebreia teve que sacrificar um cordeiro. 
Da mesma forma, para deixarmos a morte, o Cordeiro de Deus que remove o pecado do mundo,
teve que ser sacrificado. 
Toda travessia da vida é patrocinada pelo Cordeiro.
O fato é que a Páscoa não é só a passagem da morte para a vida,
mas é a vitória da vida sobre a morte.
É por meio da ressurreição de Jesus que uma cova serve de jardim. 
Um lugar onde a semente morre para fecundar a terra e fazer uma nova flor nascer.
É o recado que a morte não é o fim, mas um sinal de recomeço.
Toda morte vencida gera vida para que seja possível passar do luto à luta. 
Não encare essa travessia sozinho, confiante no próprio braço. 
Confie no Cordeiro imolado.
Avance!.
Ficar parado com medo do destino,
é um desatino que te faz clandestino da própria existência. 
Faça da vida uma Páscoa contínua.
Ressuscite.
Reapareça.
Renasça.
Ressurja.
Reviva.
Renasça de forma continua.
A Páscoa significa ressuscitamento.
Que possamos ressuscitar o sentido de ser gente, o amor que se esfriou, a empatia, o respeito, a tolerância, o conviveu, o coletivo, a igualmente, o dividir, o repartir para que vivamos o verdadeiro sabor da Páscoa que se chama: Jesus Cristo.
 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Sexta-feira Santa

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Jesus que pregou a paz o amor a solidariedade princípios  de se viver coletivamente.
Onde o coletivo é  mais importante  que a individualidade. 
Foi condenado, torturado e morto!.
Por quem?.
Pelo sistema dominante da época.
O Império Romano com apoio  político dos religiosos da época!.
Gostaria de dizer  que de 2000 anos pra cá  o mundo mudou!.
Mas não é  verdade!.
Brasil campeão de Feminicidio
O Racismo, a derrubada das terras indígenas com olhar de exploração  comercial de suas terras.
Minério , Madeira ainda pra alguns vale mais que a vida e o jeito de viver indigena.
Ainda a individualidade o poder financeiro  de poucos se sobrepõem da maioria.
Vivemos um governo fundamentalista, conservador,
que prega a violência  às armas como forma eficaz de ordem.
Com uma política de armar os seus contra os que pensam de uma forma diferente.
E quem pensa de forma diferente já é  taxado de Comunista.
Não que eu não seja!.
Mas todo mundo agora o é!.
Os que defendem esse governo sai usando da violência  como regra.
E ao mesmo tempo muitos usando o nome de Deus.
Como disse Jesus foi condenado, taxado de subversivo.
Hoje seria diferente?.
Infelizmente acredito que não!.
Pois como disse Jesus.
 Como trato o outro  é como você me trata.
Sendo assim a sociedade ainda crucifica Jesus!.
Quando sou intolerante, racista, xenofobico, homofóbico, violento e egoísta.
Cabe ao" justos", aos humanistas aos socialistas,comunistas, cristãos, e de todas as religiões orientais, ocidentais e Africanas  transformar a sociedade. 
Contra estes seguidores deste espectro sombrio!.
Que crucificou Jesus e continua a crucifica-lo.

Tiros em Nova- York

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Em menos de 24 horas,
a polícia identificou,
localizou e prendeu o homem que disparou tiros e feriu 30 pessoas no metrô de Nova York.
A caça mobilizou todas as autoridades, unidas por um sentido de ação,
reação e indignação,
coisas típicas de quem não aceita fazer concessão ao crime seja qual for.
É disso que a cidade do Rio precisa!.
Desse ato de urgência,
atenção, proteção e amor.
Não só a cidade do Rio,
mas também os cariocas,
os turistas,
os negócios,
os comerciantes,
os empresários,
os investidores.
Mais do que suas praias,
paisagens e belezas naturais,
o Rio é uma marca,
uma grife,
a moda que não sai de moda.
A cidade é a sede oficial do sol,
do mar, do samba,
da bossa nova,
do Rock in Rio.
Temos atrações pelas quais milhões de pessoas estão dispostas a pagar bilhões de dólares, euros ou reais.
Para muitos estrangeiros,
o Rio é a melhor Nova York que já conheceram;
a melhor Londres que já se viu;
a melhor Paris;
a melhor Madri;
a melhor Tóquio.
Nenhuma outra cidade é tão melhor aos olhos de tantos visitantes.
E nunca tantos visitantes viraram,
de graça, garotos-propaganda da nossa cidade que costuma ser aclamada por reis,
rainhas,
papas,
presidentes e celebridades de todo o planeta.
Já sabemos como viver e sobreviver no Rio.
Só precisamos aprender a proteger e ganhar dinheiro com essa Cidade Maravilhosa.
Afinal, se os nova-iorquinos amam Nova York,
o mundo inteiro ama o Rio.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Um Deus segundo a minha perversidade

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De que me serve um Deus vulnerável, senão para desbancar minhas presunções?.
Do que me serve um Deus despido, ensanguentado, rendido,
vencido pela dor,
escarnecido,
ridicularizado,
senão para expor meus preconceitos mais arraigados e a obscenidade instalada nos recônditos mais obscuros da minha alma?.
De que me serve um Deus embriagado de amor?.
Prefiro um Deus sóbrio que jamais erre a pontaria quando tiver que alvejar e destruir meus desafetos. 
Não quero um Deus que desmascare minhas certezas, que desfaça minhas ilusões.
Quero um Deus que me garanta, que seja o fiador de meus desvarios. 
Quero um Deus customizado,
que jamais me desaponte.
Que nem pense em me dizer um não.
Um Deus que seja bom em fazer o mal.
Um Deus ao meu inteiro dispor, que atenda aos meus caprichos e justifique minha ganância e ambição.
Um Deus que não se atreva a vasculhar os porões da minha alma, nem altere a posição dos móveis nos cômodos do meu ser.
Que deixe meu mundo particular intacto.
Quando muito, que espane a poeira acumulada ao longo dos anos. 
Um Deus austero com os que pensam diferentemente de mim,
mas condescendente com minhas sandices.
Que subscreva minha ideologia, ainda que resulte na miséria e na morte de outros. 
Enfim, um Deus segundo as minhas suposições. 
Em que esse Deus se parece com Jesus?.
Por isso o crucificamos.
Ele não atendia aos requisitos.
Ele era bom demais com quem não prestava e duro com quem se achava o suprassumo da moral e dos bons costumes, vulgo cidadão do bem. 
O Deus segundo Jesus não cabe em meu andor político,
nem pode ser dissecado pela minha teologia, tampouco bajulado em minha liturgia. 
Prefiro um Deus que faz das igrejas seu sepulcro, e de seus ministros, mensageiros da morte,
e de seus cultos, procissões em direção do abismo.
Um Deus segundo o meu coração e a minha perversidade. 
* Sei do risco de não compreenderem minha ironia, mas tenho esperança de que este texto desperte a consciência de alguns.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Poema sobre a entrada triunfal em Jerusalém

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Havia uma expectativa no ar.
Todos comentavam entre si que finalmente chegara o dia em que o Messias tão esperado adentraria triunfantemente em Jerusalém; dirigindo-se ao palácio, deporia Herodes, o rei fajuto, marionete do império romano.
Um tal galileu surgira na periferia, fazendo milagres, exorcizando demônios, alimentando multidões.
Além de tudo, tinha pedigree.
Só poderia ser Ele, o filho de Davi,
que libertaria Seu povo do domínio romano, e assumiria o trono do qual era herdeiro.
A cidade estava em polvorosa.
Munidos de ramos, todos dirigiram-se ao portão principal para dar boas vindas ao que vinha em nome do Senhor.
HOSANA!.
Os tempos áureos voltaram!.
Viva o Filho de Davi!.
De repente, desponta no horizonte um figura doce, serena, montada num jumentinho.
Seus discípulos O precediam e engrossavam os brados de hosana.
Acostumados em assistir às paradas triunfais, em que reis e generais se apresentavam montados em extravagantes corcéis,
a imagem d’Aquele galileu montado num jumento era, no mínimo, frustrante.
Mesmo sem entender direito o que acontecia, os brados de hosana se intensificavam.
Talvez aquilo fosse um recurso visando identificá-lO com as camadas mais pobres e oprimidas da sociedade.
Ninguém podia supor que o jumentinho era emprestado.
Ao atravessar o portão da cidade, todos imaginavam que Ele Se dirigiria ao palácio, liderando o povo para um golpe de estado, mas em vez disso, Ele toma o lado oposto,
e Se dirige ao Templo.
Possivelmente muitos pensaram que Ele faria uma breve escala no templo, a fim de legitimar Seu motim, buscando apoio da casta sacerdotal.
Inusitadamente, Sua feição é transformada.
O galileu humilde montado num burrinho, agora improvisa um chicote, adentra os pátios do templo,
e de lá expulsa os cambistas e mercadores.
Confusão geral!.
Os brados de hosana foram substituídos por burburinhos.
Todos estavam enganados em suas expectativas.
Ele não estava interessado em ser unanimidade.
Não buscava apoio dos sacerdotes, nem dos dos principais partidos religiosos.
O reino que Ele representava não propunha mudanças que começassem pelo palácio,
mas pelo templo.
A Casa de Seu Pai estava sendo profanada, transformada num mercadão a céu aberto.
Antes de instaurar a ordem do reino, aquela “ordem” teria que ser subvertida.
Mesas de pernas pro ar!.
Gaiolas abertas!.
Cambistas expulsos!.
O mesmo Cristo do jumentinho é o Cristo do chicote.
Não confunda Sua humildade com passividade.
Ele jamais fez vista grossa às injustiças dos homens.
Depois de limpar o terreno,
cegos e coxos Lhes são trazidos,
e Ele os cura ali mesmo.
De repente, o silêncio é quebrado por brados de hosana, que desta vez vinham dos lábios de crianças.
Os sacerdotes, indignados, perguntam se Ele não se incomoda com aquilo.
Jesus responde: Vocês jamais leram? Da boca das crianças é que sai o mais puro louvor.
Repare nisso: Os hosanas bradados à entrada de Jerusalém não mereceram qualquer comentário de Jesus.
Entretanto, Ele sai em defesa das crianças que O louvavam com a mesma expressão.
Por quê?.
Porque estes eram legítimos, desprovidos de interesses.
Os hosanas de quem O recepcionou à porta da cidade foram interrompidos, tão logo Jesus feriu seus interesses.
Os mesmos lábios que O enalteciam, dias depois clamavam por sua crucificação.
Quão volúveis somos nós, humanos.
Num dia aplaudimos, noutro vaiamos.
Quem hoje é unanimidade, amanhã é execrado. 
Aqueles O louvavam por imaginarem que Jesus planejava um golpe político, e que, em posse do trono, romperia relações com Roma, reduziria a carga tributária,
e restabeleceria a monarquia de Davi.
Mas Jesus tinha em mente outro tipo de revolução.
Somente as crianças estavam prontas para isso.
Naquele momento, Jesus Se tornou no super-herói da meninada.
Só Ele teve a coragem de desafiar o status quo.
Só Ele ousou enfrentar os que detinham o monopólio religioso.
Enquanto as crianças O louvavam,
os adultos, indignados, já pensavam em como detê-lO.
Foi esta postura subversiva que Lhe custou a vida.
Começava ali a contagem regressiva para que o Cristo subversivo fosse morto, não por defender uma ideologia, mas um ideal, o ideal do Reino de Deus.
Desde então, o grito de “hosana” deveria ter conotação subversiva,
e não ser mais um jargão religioso.
Que seja o hosana das crianças,
dos representantes do futuro, aqueles para os quais é o reino dos céus, e não o hosana dos interesses inconfessáveis, do monopólio,
da religiosidade insípida,
do jogo político.
É triste e revoltante ver tantos cristãos deixando seus cultos dominicais portando ramos nas mãos, sem com isso serem cúmplices de Deus na instauração do Seu reino.
Que ninguém se atreva a reduzir Sua agenda às nossas expectativas e paixões ideológicas.
O Cristo que derruba mesas,
também derruba púlpitos e altares.
Lembrem-se de que o juízo de Deus sempre começa pela Sua própria casa, e ele será sem misericórdia com os que não usaram de misericórdia com os seus semelhantes.
O que sucede ao povo, também sucede ao sacerdote.
Ninguém está imune!.
Arrependam-se enquanto é tempo.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Poema sobre a Ditadura e a cumplicidade das igrejas

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O Ministério da Defesa publicou ontem uma ordem do dia assinada pelo general Braga Netto em referência à data de 31 de março, marcada pelo golpe de 1964, que deu início à ditadura militar no Brasil.
O documento surpreendeu ao incluir as igrejas como protagonistas do golpe militar, juntamente com empresários, a imprensa, a OAB,
a própria população e as Forças Armadas, que, de acordo com o general, aliaram-se, reagiram e mobilizaram-se nas ruas, para restabelecer a ordem e para impedir que um regime totalitário fosse implantado no Brasil, por grupos que propagavam promessas falaciosas, que, depois, fracassou em várias partes do mundo.
Tudo isso pode ser comprovado pelos registros dos principais veículos de comunicação do período.
O ministro ainda pede que a população reconheça o papel desempenhado por civis e militares que os deixaram um legado de paz, de liberdade e de democracia,
valores estes inegociáveis, cuja preservação demanda de todos os brasileiros o eterno compromisso com a lei, com a estabilidade institucional e com a vontade popular.
Desconheço qualquer outro país latino-americano que tenha sofrido golpe semelhante, cujos militares insistam que se comemore o inglório evento.
Pelo contrário, trata-se o fato como vexatório, digno de repulsa.
A razão disso repousa no fato de que no Brasil os militares envolvidos foram anistiados, enquanto nos demais país, foram julgados e sentenciados.
O processo de redemocratização, ocorrido 21 anos depois do golpe,
foi encarado como um favor que os militares prestavam ao país, de modo que puderam impor seus próprios termos, que incluíam ampla anistia que beneficiasse tanto os perseguidos políticos, quanto os próprios militares.
Se por um lado, a anistia possibilitou o retorno dos exilados, também isentou torturadores e demais agentes da ditadura.
Portanto, crimes praticados na ditadura, incluindo prisões ilegais, tortura, assassinato, desaparecimento forçado de pessoas, ocultação de cadáveres, violações aos direitos humanos, foram todos perdoados pela Lei da Anistia.
Em razão disso, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por se negar a investigar e condenar os culpados pelos crimes cometidos durante a Ditadura. 
O Brasil mergulhou num período de 21 anos obscuros de autoritarismo, repressão e supressão de direitos, que começou com a deposição de João Goulart, um presidente democraticamente eleito, e terminou com uma vergonha anistia de mão-dupla. 
Como igrejas puderam contribuir com algo tão nefasto?.
Os crentes embarcaram numa narrativa construída em torno de uma suposta necessidade de se defender a segurança nacional contra a “ameaça comunista”.
Um dos eventos que impulsionaram o golpe militar de 1964 foi a chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, visto ter oferecido um argumento a favor dos militares e dos grupos políticos e econômicos conservadores para a deposição do governo e a instalação do novo regime.
Segundo os organizadores da marcha, João Goulart seria o representante dos interesses do comunismo a ser implantado no Brasil.
A argumentação religiosa exposta na Marcha em “defesa da família e dos valores cristãos” contra a suposta ameaça comunista do presidente, foi uma resposta ágil e direta ao comício feito por João Goulart no centro do Rio de Janeiro, em 13 de Março de 1964, no qual apresentou seu plano econômico em que indicava a necessidade da reforma agrária e a intenção de estatizar as empresas de petróleo particulares, dentre outras medidas de cunho popular.
Em apoio à intervenção militar, o pastor batista Enéas Tognini convocou o povo evangélico para um dia de jejum e oração para evitar que o Brasil se tornasse um país comunista.
Sem qualquer arrependimento posterior, o pastor teria dito que os militares salvaram o Brasil do comunismo. 
Mesmo que os atores não sejam os mesmos, o roteiro se repete em um cenário que parece reproduzir ao que precedeu o golpe de 1964.
Não há o que ser comemorado.
Mas, certamente, há razão de sobra para lamentar, sobretudo, o fato de não termos aprendido com a nossa própria história, de modo, a repetirmos os mesmos erros de gerações que nos antecederam. 
Pastores vêm às redes sociais para insultar ministros do STF, como se quisessem ser presos para alegarem perseguição religiosa.
Nada contra os militares.
Tudo a favor da liberdade.
E para que isso seja garantido,
que os militares se limitem às suas atribuições e não queiram decidir o destino do nosso povo.
Portanto, que voltem para os quartéis, de onde jamais deveriam sair a não ser para defender o seu país contra ameaças reais externas.
Que os pastores e sacerdotes retomem suas atividades religiosas e deixem o cenário político.
Estado e religião são água e óleo. Voltem para suas congregações e paróquias, e parem de envergonhar o nome de Jesus.

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